poliTICs 40

Editorial

O Nupef tem o prazer de colaborar na publicação de artigos que debatem os resultados da consulta do CGI.br sobre regulação de plataformas digitais no Brasil, realizada em 2023. A consulta originalmente recebeu um total de 1.336 contribuições de pessoas e organizações dos quatro setores que compõem o CGI.br (setor governamental, terceiro setor, setor empresarial e comunidade científica e tecnológica).

Em seguida, o CGI.br publicou um relatório de sistematização dos resultados, para apresentá-los de forma mais acessível e sintética. No entanto, as extensas contribuições dadas pela sociedade brasileira permitem diversas interpretações e análises por metodologias diversas, que podem ser exploradas por novos autores.

Uma nova chamada de contribuições foi então realizada pelo CGI.br, em parceria com o Nupef, com o objetivo de publicar os textos melhor avaliados, em um processo de revisão por pares, na revista poliTICs. Das mais de 60 contribuições, 14 artigos foram aprovados e selecionadas para publicação. Devido ao tamanho para publicação impressa, a edição especial 40 da poliTICs será publicada em dois volumes com o apoio do CGI.br.Os artigos restantes seguirão sendo analisados pela equipe editorial da poliTICs para futura publicação conforme o interesse das/os autoras/es.
Este primeiro volume da edição especial traz os cinco trabalhos abaixo relacionados:

Design enganoso e manipulativo em plataformas digitais – um mapeamento entre estudos empíricos e reflexões para regulação -- George Augusto Valença Santos
O artigo analisa os impactos de padrões antiéticos de design através de uma abordagem qualitativa. Foram realizadas duas oficinas com pesquisadores e estudantes de ensino superior para mapear tipos de design manipulativo e enganoso em plataformas de software. Os achados nas oficinas foram associados às contribuições sobre design antiético identificadas na consulta do CGI.br. Os resultados destacam a urgência de regulações e iniciativas de letramento digital específicas, além de práticas de design que priorizem o bem-estar dos usuários.

Significados do discurso de ódio: desafios regulatórios e disputas discursivas na visão de diferentes setores sociais -- Eliza Bachega Casadei, Gabriela Agostinho Pereira
O texto analisa a complexidade das dinâmicas que envolvem a regulação de discursos de ódio em plataformas digitais. São exploradas as respostas de três setores sociais na consulta do CGI.br (Comunidade Científica e Tecnológica, Terceiro Setor e Setor Empresarial). A análise destaca as distinções entre os setores acerca do entendimento do discurso de ódio e, consequentemente, as soluções regulatórias, revelando as tensões que permeiam o campo da regulação digital e os desafios para estabelecer consensos em torno do enfrentamento do discurso de ódio nas plataformas digitais.

Regulação da desinformação nas plataformas digitais e o contexto eleitoral brasileiro -- Giovanna Milanese Tavares, Leandro Léo Rebelo , Marina Giovanetti Lili Lucena.
O texto investiga a regulação das plataformas digitais no contexto eleitoral tendo em conta a sistematização da consulta do CGI.br. A partir de uma análise conceitual, busca-se compreender se as medidas de mitigação propostas pela consulta no contexto das eleições são inovadoras ou se já são previstas na legislação eleitoral brasileira.

Atenção, dados e poder: uma análise crítica da infodemia e da desinformação -- Leandro Modolo, Leonardo Castro, Luis Gonçalves
A partir da leitura crítica da sistematização da consulta pública do CGI.br, este artigo explora os conceitos de  infodemia, desinformação e noções associadas, tais como os sistemas de crenças, para reenquadrá-los em um contexto sócio-histórico mais amplo, em diálogo com os conceitos de economia da atenção e capitalismo de plataformas. Argumenta que a infodemia e a desinformação são aspectos determinantes da economia digital contemporânea, e não simplesmente falhas de mercado. O texto explora como a infodemia e a desinformação se entrelaçam com o desenvolvimento de inteligência artificial e a produção massiva de dados digitais no contexto do capitalismo de plataformas.

A questão negra na regulação das plataformas digitais: uma análise da consulta realizada pelo CGI.br -- Fernanda dos Santos Rodrigues Silva, Marco Antônio Alves, Mariana Alves Araújo Lopes
O texto analisa como a questão racial apareceu e foi abordada no debate da consulta. Partiu-se do pressuposto de que o marco regulatório brasileiro sobre plataformas digitais precisa ser explicitamente antirracista para impedir a reprodução do racismo estrutural. As principais conclusões indicam que houve avanço na interseção entre regulação de plataforma e o debate racial, mas ainda há dificuldades. O consulente, ao formular as questões, foi mais genérico, sem enfocar diretamente o racismo. Nas contribuições, sugeriu-se, dentre outros, uma moderação de conteúdo mais inclusiva, auditorias algorítmicas, relatórios sobre discriminação racial e a criação de uma autoridade regulatória com composição diversificada, incluindo representação racial.  Apesar disso, o total de menções à questão racial foi baixo em relação ao número total de contribuições.


Obra sob licença Creative Commons . Edição 40 [ Vol. I ] Julho 2025 | Créditos/Ficha técnica


 

 
Natália Góis Ribeiro é graduada em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie - SP. Advogada na área de proteção de dados, direito digital e propriedade intelectual. Pesquisadora do núcleo de proteção online de crianças e adolescentes do Legal Grounds Institute. Pesquisadora no Núcleo de…
 
Henrique Almeida Bazan é bacharel e mestre em Direito na  Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Alumni do Oxford Media  Policy Summer Institute 2024. Fellow do Programa Youth Brasil 2022 do  CGI.br. Pesquisador do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da FGV  Direito Rio…
 
Giovana Tiziani é jornalista, formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e mestra em Economia do Setor Público pela Universidade de Brasília (UnB) e Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). É servidora pública de carreira do Instituto de…
 
Camila Leite Contri é doutoranda em Direito Comercial na USP, mestra em Direito Econômico pela Universidade Jean Moulin Lyon 3 e bacharel em Direito pela USP e pela Universidade Jean Moulin Lyon 3. Atualmente, é coordenadora do Programa de Telecomunicações e Direitos Digitais no Idec -…