Privacidade na Era da Persistência

Por Bruce Schneier, diretor de Tecnologia da Segurança, British Telecom (BT)

Data da publicação: 

Julho de 2009

Sejam bem vindos ao futuro, onde tudo que existe a seu respeito é “salvo”. Um futuro onde suas ações são registradas, seus movimentos rastreados e suas conversas deixam de ser efêmeras. Um futuro trazido a você não por alguma distopia ao estilo 1984, mas pelas tendências naturais dos computadores para a produção de dados.

Dados são a poluição da era da informação. Trata-se de um subproduto natural de cada interação mediada por computadores. Eles ficam por aí para sempre, a menos que sejam descartados. São valiosos quando reutilizados, o que deve ser feito com cuidado. Caso contrário, seus efeitos posteriores são tóxicos.

E assim como há cem anos as pessoas ignoravam a poluição, na azáfama de construírem a Era Industrial, hoje ignoramos os dados na azáfama de construirmos a Era da Informação.

Deixamos cada vez mais rastros de pegadas digitais em nosso cotidiano. Antigamente, você entrava numa livraria e comprava um livro pagando em dinheiro vivo. Agora você visita o sítio web da Amazon e todas as suas compras ficam gravadas, inclusive o histórico da navegação. Você comprava o bilhete do trem com moedinhas; agora o cartão eletrônico de ingresso é vinculado à sua conta bancária. Os cartões de fidelidade das lojas lhe dão descontos; os comerciantes usam os detalhes ali registrados para formular seu perfil de compras e consumo.

Dados a seu respeito são coletados sempre que você dá um telefonema, envia uma mensagem de email, usa um cartão de crédito, ou visita um sítio na Internet. Os documentos de identidade digitalizados só exacerbam tudo isso.

Há cada vez mais sistemas computadorizados nos vigiando. As câmeras chegam a ser ubíquas em algumas cidades e há de chegar o dia em que as tecnologias de identificação facial serão capazes de identificar todo e qualquer indivíduo. Aparelhos para varredura de placas de veículos já rastreiam automóveis em alguns estacionamentos e cidades. Impressoras a cores, câmeras digitais e algumas fotocopiadoras trazem embutidos códigos de identificação. Sistemas de vigilância aérea são usados para evitar infrações no acesso a certos prédios e também para informar, com vistas a atividades de marketing, o tamanho dos jardins e das casas. À medida em que forem se tornando mais comuns, os chips de identificação por rádio frequência (RFID) também serão rastreados. Trata-se de uma vigilância por atacado; não é mais a situação de “siga aquele carro” mas sim de “siga todos os carros”.

Os computadores também andam mediando conversas. Face a face, elas são efêmeras. Há alguns anos, as companhias telefônicas talvez já pudessem dizer para quem você telefonou ou quanto tempo durou a conversa, mas não o que foi dito. Hoje você bate um papo por email, através de mensagens de texto, ou em sítios web de redes sociais, faz o seu blog ou interage pelo Twitter. Essas conversas com colegas, amigos e familiares, também podem ser gravadas e armazenadas.

Antigamente era caro demais gravar e guardar (“salvar”) todos esses dados, mas a memória do computador hoje é mais barata. A capacidade de processamento também; cada vez mais dados têm referência cruzada e são correlacionados para uso posterior com propósitos secundários. O que era efêmero agora é permanente.

Quem vai coletar e usar esses dados é algo que depende das leis de cada lugar. Nos EUA, as empresas coletam, depois compram e vendem muitas dessas informações para usar em ações de marketing. Na Europa, os governos coletam mais que as empresas. Em ambos os continentes, as autoridades encarregadas do cumprimento das leis querem acesso à quantidade máxima possível de informações, com vistas a investigações e mineração de dados (data mining).

Em qualquer que seja o país, cada vez mais organizações coletam, armazenam e compartilham dados em volumes crescentes.

E vem mais por aí. Programas e dispositivos de registro da digitação em teclados (keyboard logging) já podem guardar todas as sequências das teclas que você aciona; daí a gravar tudo que você diz no telefone celular é uma questão de poucos anos.

O life recorder, aparelho que se prende à lapela para gravar tudo que você vê e ouve na sua vida, não fica muito atrás. Será vendido como dispositivo de segurança para que ninguém possa atacá-lo sem que isso fique registrado. Quando isso acontecer, deixar de usar um “gravador da vida” poderá ser considerado evidência de que a pessoa não estava para bons amigos, assim como os promotores já usam o fato de alguém ter deixado o telefone celular em casa como evidência de que não queria ser rastreado?

Estamos vivendo tempos únicos na história: a tecnologia está aí, mas ainda não é impecável. Verificações da nossa identidade são coisas comuns, mas ainda precisamos apresentar a cédula. Em breve, isso vai acontecer automaticamente, tanto pela averiguação remota de um chip na carteira ou pelo reconhecimento do rosto capturado por uma câmera.E todas essas câmeras, agora visíveis, vão encolher ao ponto de não serem mais visíveis. As conversas efêmeras vão praticamente desaparecer e vamos achar isso a coisa mais normal do mundo. Nossos filhos já vivem a vida muito mais em público do que nós. Seu futuro não tem privacidade, não por uma tendência dos governos funcionarem como estado-polícia ou por prevaricação de alguma empresa, mas sim porque os computadores naturalmente produzem dados.

Como bem disse o Cardeal Richelieu: “Se me dessem seis linhas escritas pelo mais honesto dos homens, eu ali encontraria algo que o levasse à forca.”

Quando todas as suas palavras e ações podem ser guardadas para um exame posterior, as regras a se aplicar devem ser diferentes.

A sociedade funciona exatamente por ser a conversa algo efêmero; pois as pessoas se esquecem, e não precisam justificar cada palavra que proferem.

Conversa não é a mesma coisa que correspondência. Palavras ditas com pressa ao café da manhã, sejam elas faladas numa lanchonete ou digitadas no minúsculo teclado de um BlackBerry, não são correspondência oficial. Um padrão de dados que indique “tendências terroristas” não pode substituir uma investigação de verdade. O escrutínio constante da vida das pessoas acaba minando as normas sociais; além do que, é de arrepiar. A privacidade não é só uma questão de ter algo a esconder; trata-se de um direito básico com um valor enorme para a democracia, a liberdade e nossa humanidade.

Não vamos parar a marcha da tecnologia, assim como não podemos desinventar o automóvel ou o forno a carvão. Passamos a era industrial nos aproveitando dos combustíveis fósseis, que poluíram o ar e transformaram o clima. Agora tratamos de lidar com as consequências (enquanto ainda usamos os ditos combustíveis fósseis, é claro). Desta feita, talvez consigamos ser um pouco mais proativos.

Assim como olhamos para o início do século anterior e balançamos a cabeça ante a ignorância geral sobre o que a poluição causava, as gerações futuras olharão para nós que vivemos as primeiras décadas da era da informação e julgarão as soluções que demos para a proliferação de dados.

Precisamos, todos juntos, começar a discutir essa grande mudança da sociedade e seu significado. E precisamos dar um jeito de criar um futuro do qual nossos netos sintam orgulho.

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PARA SABER MAIS

• Este ensaio foi publicado originalmente no site BBC.com. http://news.bbc.co.uk/1/hi/technology/7897892.stm

• Recursos adicionais: National ID cards (“Cédulas de identidade nacionais”): http://www.schneier.com/essay-160.html

• Surveillance cameras (“Câmeras de vigilância”): http://www.schneier.com/essay-225.html

• RFID chips (“Identificação por rádio-freqüência”) http://epic.org/privacy/rfid

• Cell phone surveillance (“Vigilância dos telefones celulares”): http://computerworld.com/action/article.do?command=viewArticleBasic&arti... or http://tinyurl.com/au2f4n

• Wholesale surveillance (“Vigilância por atacado”): http://www.schneier.com/essay-147.html

• Data mining (“Mineração de dados): http://www.schneier.com/essay-108.html

• The future of surveillance (“O future da vigilância”): http://www.schneier.com/essay-109.html

• Face recognition (“Reconhecimento facial”): http://epic.org/privacy/facerecognition/

• Privacy and the younger generation (“Privacidade e a geração mais jovem”): http://nymag.com/news/features/27341/

• Ill effects of constant surveillance (“Efeitos maléficos da vigilância constnt”): http://news.bbc.co.uk/1/hi/uk_politics/7872425.stm

• The value of privacy (“O valor da privacidade”): http://www.schneier.com/essay-114.html

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