Open Everything Mindmap

Entrevista com Michel Bauwens

Data da publicação: 

Novembro de 2009

Michel Bauwens foi, durante anos, um empreendedor da área de tecnologia de informação, trabalhando como consultor para grandes empresas norte-americanas e européias. Paralelamente Bauwens se dedicou, desde a década de 90, aos estudos sobre a 'metafísica da tecnologia' e a antropologia das sociedades digitais - produzindo documentários, editando livros e proferindo palestras e cursos. Em 2002, fundou a Peer to Peer Alternatives Foundation (ou P2P Foundation), e desde então o foco de seu trabalho tem sido a produção, a governança e a propriedade compartilhadas e modelos de cooperação humana baseados na abertura, na liberdade, nas práticas participativas e orientadas aos commons. Recentemente Michel Bauwens lançou o Open Everything Mindmap, um diagrama que sistematiza, organiza e apresenta visualmente o conjunto de seu trabalho de pesquisa realizado nos últimos três anos. Este 'mapa' - cuja versão em português está na imagem disponível para download no final desta matéria, apresenta oito aspectos que, para Bauwens, compõem o ciclo de crescimento e reprodução da abertura e dos processos colaborativos nas nossas sociedades.

Nesta entrevista à poliTICs, Michel Bauwens conta um pouco sobre a elaboração do Open Everything Mindmap e compartilha algumas de suas ideias e visões sobre um novo modelo de sociedade que ele vê emergir a partir da cultura do compartilhamento, do peering e dos commons.

poliTICs Você pode nos contar qual foi a sua principal motivação para desenvolver o Open Everything Mindmap e descrever um pouco do processo que o trouxe a este modelo atual de mapa?

Michel Bauwens Eu venho pesquisando os processos p2p já há alguns anos, principalmente os modelos emergentes de produção compartilhada, governança compartilhada e modalidades de propriedade compartilhada. Seguindo uma sugestão de Nick Dyer-Whiteford1, eu cheguei a três processos principais, que se cruzam e se alimentam num ciclo de reprodução social:

a. Contribuição aberta e livre: você não pode cooperar se não tiver acesso à matéria prima com a qual trabalhar (ou se não criá-la você mesmo);

b. Processos participativos: toda pessoa que contribui livremente tem um papel e tem voz em relação a como o processo é desenvolvido;

c. Resultados orientados aos commons: os resultados devem ficar disponíveis a todas as pessoas na forma de uma nova camada de conhecimento aberto e livre.

Desde o início de 2006 eu venho guardando material - hoje são quase 9 mil páginas de documentação - sobre como estes três paradigmas estão emergindo em todos os campos da atividade humana. Os temas 'abertura' e 'commons' são os que têm mais ênfase.

Quando Ben Dagan decidiu me convidar para o festival Urban Hacking - Paraflows 20092 em Viena, sob o selo do 'Open Everything', ele insistiu muito que eu tornasse esse material visualizável, de forma que ficasse compreensível para um público maior. Eu sou muito grato à insistência dele, já que, como diz o ditado, uma imagem vale mil palavras - e a resposta que tenho recebido é fantástica.

O processo técnico foi bem trivial, as estruturas sobre as quais organizei o trabalho já eram uma realidade na minha cabeça, uma vez que eu vinha continuamente organizando o conjunto de materiais em meu wiki e no Delicious, de uma maneira bem sistemática. Talvez o fato de eu ter formação como bibliotecário tenha sido um bom recurso para me ajudar a lidar com tão vasta quantidade de informação.

poliTICs Neste trabalho cartográfico, você se foca em oito aspectos ou processos que representam o ciclo de reprodução e crescimento das dinâmicas e práticas abertas e colaborativas em nossas sociedades. Na sua opinião, quais destes aspectos são mais aceitos, estão mais desenvolvidos e incorporados na sociedade? E quais são os gargalos?

Michel Bauwens Eu distingo três áreas principais. A primeira delas é a produção e o compartilhamento do conhecimento, que eu acho que florescem, pelo menos para a parte da população que tem acesso às redes digitais de comunicação - a despeito dos obstáculos técnicos e legais representados pelas leis repressivas de propriedade intelectual. Eu sou bem otimista, eu viajei bastante nos últimos três anos e vi espaços para acesso à Internet nas cidadezinhas mais remotas.

A segunda área é o software, e eu acho que houve um enorme amadurecimento do software livre e de código aberto, em suas várias formas. Com o Ubuntu, nós derrubamos a principal resistência no que diz respeito ao desktop. Alguns dos desafios aqui são os falsos commons corporativos, controlados por empresas com práticas monopolistas, conforme descrito por Dirk Riehle;3 mas desafios especiais são a computação em nuvem e as redes sociais, que são grandes armazenadoras de dados. Estas práticas colocam em risco algumas das conquistas do software livre, então a luta agora é em direção a serviços livres e abertos de redes sociais e para que a portabilidade dos dados esteja sob controle dos próprios usuários.

Finalmente, algo que emerge agora com bastante força são as comunidades de design aberto, dedicadas a desenvolver objetos físicos. Esta tendência cresce com uma velocidade incrível, com novas iniciativas surgindo a cada dia. Isso aponta para uma estrutura distribuída de manufatura aberta, algo completamente novo, que vai combinar a essência dos commons no design aberto, nas coalizões de empreendedores produtores e em suas ecologias de apoio à produção. O lançamento da rede física '100kgarages.com' nos Estados Unidos é uma primeira indicação deste novo padrão de criação de valor orientada aos commons.

O que é essencial compreender é que as comunidades de design aberto desenvolvem design de uma forma diferente, o que inclui desde o maquinário de produção até a concepção modular dos objetos. O sucesso deste novo modelo é uma pré-condição para a solução da crise de sustentabilidade do planeta. Ainda que estejamos nos primeiros momentos desta cultura, a velocidade de sua emergência é entusiasmante. A Fundação P2P e o Grupo de Pesquisa P2P organizaram em novembro, com o apoio e financiamento da Universidade de Salford, a oficina Industry 2.0 em Manchester, com o objetivo de reunir um grupo de desenvolvedores das plataformas de manufatura aberta.

poliTICs Você afirma que todos os esforços empreendidos a partir do ponto II do mapa (elementos que possibilitam a abertura) até o ponto VII (movimentos abertos) transformam nossas subjetividades e a maneira como nos relacionamos uns com os outros. Que tipo de transformação você percebe nos sujeitos contemporâneos e nas relações humanas, que estejam diretamente relacionadas à abertura, como princípio e prática?

Michel Bauwens Primeiro deixe-me esclarecer que nem todas as pessoas estão mudando ao mesmo tempo, e no mesmo grau de transformação - mas um número significativo de pessoas está mudando e buscando criar, de alguma maneira, uma transformação social profunda. Eu me lembro de ter lido em algum lugar que a Renascença na Europa foi levada adiante por apenas umas poucas centenas de pessoas. Em suma, estão ocorrendo transformações na ontologia, nas maneiras de ser; na epistemologia, nas maneiras de conhecer; e na axiologia, nos sistemas de valor. Eu acho que há uma nova estrutura de desejo em ação, que faz com que as pessoas escolham a abertura e o compartilhamento como um padrão, como opções de vida.

As invenções tecnológicas empreendidas por uns poucos que demonstram estar neste novo estado de consciência são utilizadas livremente por outras pessoas, que por sua vez são influenciadas por esta lógica. Eu diria que a mudança profunda se dá a partir de um foco na individualidade (o foco moderno e pós-moderno) em direção a um outro foco, na construção de uma nova relacionalidade baseada na afinidade. Assim como a (pós) modernidade desenvolveu a individualidade e todas as suas ramificações, nós agora estamos desenvolvendo a relacionalidade e todas as suas ramificações, e a abertura é parte desta transformação fundamental na intersubjetividade humana. Uma pequena prova desta transformação: um relatório recente da Nielsen4 nos Estados Unidos confirmou que hoje em dia, mais produtos são comprados a partir de uma recomendação pessoal do que a partir do modelo clássico de anúncios publicitários. Isso significa que um amplo deslocamento em direção às subjetividades da parceria já ocorreu, e de forma significativa. Hoje em dia, os parceiros já são mais importantes do que as instituições mediadoras, em muitos aspectos fundamentais da vida contemporânea.

poliTICs Você inclui, em seu trabalho, uma tentativa de representar o processo de “Circulação do Comum" - as maneiras pelas quais os commons se reproduzem socialmente. Você poderia nos oferecer alguns exemplos desta circulação e destacar que tipo de práticas, processos e perspectivas mais contribuem para esta reprodução? E mais, que elementos você considera que representam os maiores obstáculos para este fluxo, em nossas sociedades?

Michel Bauwens A primeira condição para a livre cooperação entre indivíduos que se agregam em torno da criação colaborativa de valor é o acesso à matéria prima. O copyright, as patentes e outras formas de proteção à propriedade intelectual são um obstáculo para esta cooperação onde quer que eles existam ou predominem. Assim, as iniciativas em direção a licenças abertas e orientadas ao comum - tais como o Creative Commons e o GPL -, e também a cultura livre, o acesso aberto à publicação acadêmica, a informação governamental aberta e os movimentos de ciência aberta são essenciais. Portanto, a propriedade intelectual privatizada é o primeiro obstáculo.

A segunda condição é que o processo de criação de valor em si deve ser participativo. Não é nada motivador contribuir, se você mesmo não for um ator, um elemento ativo no processo - especialmente se sua participação for voluntária. É por isso que a produção colaborativa é, por definição, inclusiva; e é por este motivo que os procedimentos de seleção de qualidade sempre ocorrem no final do processo, depois de incluídas todas as contribuições livres - nunca antes disso. A imposição de limites à participação, tais como no processo de governança da Wikipedia (onde uma elite de editores não-especialistas detêm poder sobre o especialista que contribui voluntariamente sobre determinado assunto) é uma barreira e isso explica por que a enciclopédia apresenta uma curva de crescimento que se mantém horizontal desde a introdução do “deletismo”, isto é, de um poder exclusivo de deletar as contribuições de outras pessoas. Portanto, o autoritarismo é o segundo obstáculo.

Por fim, o resultado do trabalho não pode ser apropriado de forma privativa, pois isso também desencorajaria contribuições de longo prazo - daí vem a orientação quanto ao uso de licenças abertas. A apropriação é o terceiro obstáculo. Uma vez que licenças abertas sejam usadas para proteger um valor recém criado, isso significa que o ciclo está completo, já que os commons criam uma nova camada iterativa de material livre e aberto.

poliTICs Nós estamos testemunhando tentativas, em muitos países, de implementação de políticas e leis que visam controlar o livre intercâmbio de conhecimentos e produtos, especialmente aqueles trocados em redes p2p. Muitas empresas investem enormes quantias de dinheiro para desenvolver tecnologias com o mesmo fim: controlar o compartilhamento de música, vídeo, livros e outros bens. Na sua opinião, o caminho rumo às sociedades colaborativas baseadas no princípio da abertura é inexorável, ou ainda existe a chance que forças conservadoras bloqueiem este caminho?

Michel Bauwens Eu acho que é bem possível que as forças que se sustentam nos monopólios tenham sucesso em atrasar e impor obstáculos a esta forte tendência rumo à abertura. Mas eu sou bastante cético sobre a ideia de que a repressão legal e a sabotagem tecnológica (como o DRM5) possam impedir o fortalecimento a longo prazo de novas modalidades hiper-produtivas que surgem com a interconectividade em redes e com a inteligência coletiva dos seres humanos articulados em rede. Portanto, eu tenho uma visão otimista de que existe uma ação de retaguarda. Muito provavelmente esta virá do fato de que as facções abertas do capital terão sucesso em desenvolver formatos híbridos e arcabouços institucionais que possam incorporar a abertura em seus próprios termos, e é responsabilidade das comunidades abertas fazer isso também, nos “nossos próprios termos”.

No futuro certamente haverá, portanto, algum tipo de contrato social entre comunidades colaborativas, abertas, e as plataformas corporativas - marcado pela emergência de novas instituições orientadas ao comum que refletirão um equilíbrio de forças. É disso que se trata a nova 'luta de classes'. Se é fato que ainda não existe nenhuma opção realista para a transformação rumo a um mundo verdadeiramente igualitário, então o que se torna crucial é entender que tipo de mapas sociais podem ser obtidos por aqueles que trabalham pelos commons. Pense nos direitos conquistados pelos habitantes das cidades medievais e pelos fazendeiros comunais através de documentos como a Magna Carta, e também através da prática social. O que dá esperança é ver que, apesar de todos os problemas inerentes ao capitalismo, as sucessivas ondas dos ciclos Kondratiev6 e os paradigmas tecno-econômicos que as seguem têm sido em sua maioria mais inclusivos do que os precedentes.

Eu vejo a próxima “onda” como uma integração do neocapitalismo com variadas doses de abertura e participação, nas quais dinâmicas p2p podem evoluir do estágio seminal de hoje para uma eventual paridade, como ocorreu no século 18 - uma compactação e um equilíbrio entre o feudalismo e o capitalismo. Quando isso ocorrer, eu creio que é inevitável (já que um modelo de mercado de crescimento infinito como o atual em breve será incompatível com a própria sobrevivência humana) que novas lógicas sociais e econômicas mais produtivas sejam o fundamento das sociedades, enquanto os mercados existirão na periferia como um mero subsistema.

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1. Autor do livro Cyber-Marx: Cycles and Circuits of Struggle in High Technology Capitalism e professor da University of Western Ontario.

2. Festival de arte digital e cultura: http://www.paraflows.at

3. Ver em http://dirkriehle.com

4. Empresa de pesquisa de mercado norte-americana - http://en-us.nielsen.com

5. Acrônimo de Digital Rights Management, ou Gerenciamento de Direitos Digitais. Mais amplamente, o DRM tem como objetivo administrar o fluxo de direitos autorais envolvido em conteúdos digitais (música, vídeo, fotografia,literatura). Também conhecido popularmente como o conjunto de métodos voltados à restrição dos usos que o consumidor pode fazer dos produtos e serviços digitais adquiridos. Ver em http://www.idec.org.br/restricoestecnologicas/glossario.html#gl_10

6. N.E.: um ciclo de Kondratiev tem um período de duração determinada (de 40 a 60 anos), que corresponde aproximadamente ao retorno de um mesmo fenômeno. Segundo o economista russo Nikolai Dimitrievich Kondratiev, estes ciclos de longo prazo seriam características da economia capitalista. Kondratiev escreveu pela primeira vez sobre os ciclos em 1922, no livro “A economia mundial e sua conjuntura durante e depois da guerra”.

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