Como a bitcoin pode derrubar os Estados Unidos

Por Rick Falkvinge, fundador e primeiro lider do Partido Pirata sueco

Data da publicação: 

Novembro de 2013

A bitcoin1 representa uma ameaça significativa ao domínio da moeda norte-americana, que é a única coisa a sustentar o status dos EUA enquanto superpotência mundial. Depois da inadimplência dos Estados Unidos diante de todos os empréstimos internacionais em 15 de agosto de 1971,2 a balança comercial do país vem se mantendo através de uma combinação de ameaças militares com ordens de compra de dólares americanos apenas para financiar a continuidade do consumo nacional. Enquanto outras moedas não conseguiram desafiar o dólar norte-americano, e por conseguinte esse mecanismo de manutenção do domínio econômico do país, a bitcoin pode conseguir.

Para compreender essa hipótese, precisamos primeiro compreender o grau de falência dos Estados Unidos da América. Por alguma razão, o destaque do momento vai para o fracasso do euro; talvez pelo fato de que o dólar norte-americano falhou há muito e vem sendo mantido vivo por uma bolha que expande-se a cada dia. Em suma, os EUA deram calote nos seus empréstimos internacionais depois da Guerra do Vietnã, e continuam a contrair empréstimos para financiar seu consumo extravagante desde então.3

Há muito que só se toma dinheiro emprestado para pagar os juros dos empréstimos anteriores. Ano passado, o déficit orçamentário do país impressionou bastante, chegando a 50%, ou seja, para cada dólar de receita dois eram gastos. Note-se que isso não é muito debatido – imagino se fosse: a capacidade do país pagar seus empréstimos seria trazida à baila, algo que seria o equivalente a derrubar o castelo de cartas com uma tonelada de tijolos, e ninguém parece estar muito interessado em balançar o barco a ponto de fazer essa água toda. Afinal, todos estão sentados em cima de reservas de dólares norte-americanos, que perderiam totalmente o valor da noite para o dia se uma coisa dessas acontecesse.

Os Estados Unidos começaram a imprimir mais moeda no dia 15 de agosto de 1971, e não pararam desde então. Só em 2011 foram 16 trilhões de dólares – estamos falando de trilhões, com “t” – impressos para segurar a economia dos EUA4. A que corresponde esse valor? Um pouco mais do que o produto interno bruto norte-americano5. Para cada dólar produzido em valor, foi impresso outro do nada, na esperança de que alguém o compre. E as pessoas compram! É isso: existe um mecanismo chave aqui que força as pessoas a continuar comprando os dólares norte-americanos.

Os Estados Unidos mantêm-se vivos enquanto país pelo fato de que as pessoas que querem comprar bens de outro país, da China, por exemplo, primeiro têm de comprar dólares norte­americanos e depois trocá-los pelos bens que querem adquirir da China. É isso, além do fato de que isso leva todos os países a comprar toneladas de dólares norte-americanos como divisas.

O fato de que as pessoas precisam continuar comprando dólares norte-americanos para conseguir o que querem de qualquer outro país do mundo é o mecanismo que sustenta toda a economia dos EUA e, o mais importante, alimenta o seu poderio militar que, por sua vez, põe esse mecanismo em prática (ver Iraque, Líbia, Irã etc)6. Trata-se de um ciclo de dominância econômica exercida através da violência que leva a gastos extravagantes, gastos conquistados, por parte dos Estados Unidos, quase todos com o poderio militar para manter tal dominância.

(Uma nota à parte: já se questiona o quanto a classe média nos EUA ainda se beneficia disso. Há uma década esse ciclo de retroalimentação tornava o padrão de vida normal nos EUA marcantemente mais alto do que em outras partes do mundo ocidental; hoje em dia, os EUA chegam bem atrás em todas as categorias de padrão de vida.)

Como as preconizações de “fim do mundo” costumam ser descartadas como baboseira, eu quis começar este artigo colocando logo na mesa alguns fatos econômicos. Os EUA estão na falência e a única coisa que evita o colapso são as suas forças armadas e o fato de que todo o mundo tem investimentos tão pesados no país que nenhum governo quer que a falência ocorra no seu turno. Assim é que os empréstimos e os gastos excessivos seguem por mais um dia... até que acabem. O que aconteceria se os EUA tivessem de passar um dia sem esses gastos todos? Haveria uma queda colossal da economia global, porém – o que é mais importante – os EUA cairiam ao estilo soviético, só que pior, por causa das diferenças estruturais. (Para compreender essas diferenças, considere o fato de que o transporte público continuou funcionando durante o colapsto soviético e que muitas famílias estavam bem preparadas para a escassez de alimentos. Nos EUA seria diferente, haveria pessoas isoladas nos subúrbios, sem combustível, alimento ou remédios – só com um monte de armas e munição. Veja os argumentos de Dmitry Orlov para saber um pouco mais sobre essa diferença estrutural.7)

ENTRA A BITCOIN, CAPAZ DE ROMPER O CICLO DE EMPRÉSTIMOS E GASTOS

Conforme observamos, a razão chave para as pessoas verem-se forçadas a comprar dólares norte-americanos é que esse é o mecanismo internacional de trocas de valores. Quem quiser comprar uma buginganga qualquer da China ou da Índia vai ter de primeiro comprar dólares norte-americanos para depois trocá-los pela buginganga. mas, conforme já vimos, a bitcoin supera em muito o dólar americano, em todos os aspectos, como um vale para o comércio internacional8. Seu uso é mais barato, mais fácil, e é muito mais rápido do que os sistemas internacionais de hoje para a transferência de valores.

Praticamente todas as pessoas com quem conversei que estão envolvidas com o comércio internacional passariam para um sistema semelhante ao da bitcoin num piscar de olhos se pudessem, dando vazão a anos de frustração acumulada com o legado do sistema bancário (que usa o dólar norte-americano). Se isso acontecer, os EUA não serão capazes de encontrar compradores para o dinheiro recém-impresso que sustenta a sua economia (e financia as suas forças armadas).

Se for rompido o lacre do ciclo do dólar, os Estados Unidos vão desabar. Uma queda e tanto! Já parece inevitável a esta altura, e a bitcoin pode ser o mecanismo capaz de romper esse ciclo.

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1. Para uma introdução aos conceitos da moeda digital bitcoin, ver http://falkvinge.net/2013/04/03/why-bitcoin-is-poised-to-change-society-... Ver também http://pt.wikipedia.org/wiki/Bitcoin

2. Ver https://en.wikipedia.org/wiki/Nixon_Shock e https://en.wikipedia.org/wiki/Bretton_Woods_system

3. Para uma descrição simplificada desse processo, ver http://falkvinge.net/2011/06/17/the-imminent-dollar-collaps-explained-to...

4. Ver http://www.businessinsider.com/feds-16-trillion-dollar-secret-slush-fund...

5. Ver https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_GDP_(nominal)

6. Sobre a invasão do Iraque, ver http://falkvinge.net/2012/10/06/the-us-invaded-iraq-because-it-wouldnt-h.... Sobre a Líbia, ver http://www.thenewamerican.com/economy/markets/item/4630-gadhafi-s-gold-m.... Sobre o Irã, ver http://www.telegraph.co.uk/finance/commodities/9077600/Iran-presses-ahea...

7. Ver http://www.resilience.org/stories/2006-12-04/closing-collapse-gap-ussr-w...

8. Ver http://falkvinge.net/2011/06/18/bitcoins-four-drivers-part-two-internati...

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