A Lanhouse nas palavras de quem faz

Mario Brandao, Diretor Presidente da Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital e proprietário de uma lanhouse desde 2002

Data da publicação: 

Dezembro de 2010

Uma recente pesquisa do Comitê Gestor de Internet reforça o que é visível em qualquer viela Brasil afora: há um curioso fenômeno acontecendo bem debaixo de nossos olhos. O que se convencionou chamar de inclusão digital acontece em cada esquina, em cada beco, através de milhares de espaços de acesso coletivo que recebem muitos nomes: lanhouses, cibercafés, lojas de conveniência digital, centros de inclusão digital... há tanta variedade de nomes quanto de modelos ou perfis de negócios para estes espaços, que têm em comum o fato de permitirem que cada vez mais pessoas – em especial as economicamente menos favorecidas – tenham oportunidade de entrar no intrigante e admirável mundo que a Internet representa.

Para nós é óbvio que todas as formas de acesso à Internet são complementares, mas consideramos que é para esta faixa da população que a alternativa de acesso coletivo é mais relevante. Não é difícil compreender o motivo – é o mesmo que nos faz compreender por que os transportes coletivos são massivamente mais usados pelas pessoas que percebem até quatro salários mínimos.

Sabe-se que o custo total de propriedade de um equipamento computacional não se esgota no seu custo de aquisição, uma vez que há o custo da conectividade, o incremento na conta de energia elétrica, o custo de manutenção do equipamento, a depreciação dos itens de informática (cuja rapidez de obsolescência é enorme), além de vários outros custos indiretos que indicam que, mesmo para um computador básico da classe sub-mil, o valor despendido para a posse residencial deste equipamento ou seu custo total de propriedade (TCO em inglês) ultrapassa facilmente os R$ 200,00 (duzentos reais) mensais, quantia que é expressivamente maior em lugares com penetração de banda larga deficiente como o norte ou o nordeste do Brasil.

A pessoa que decide utilizar um espaço coletivo de acesso à Internet gasta um quarto, ou menos, desse valor numa lanhouse ou espaço equivalente. E para quem tem renda familiar de um ou dois salários mínimos, essa diferença significa uma cesta básica a mais ou a menos no fim do mês. Isso torna o fenômeno da intensificação de uso de lanhouses compreensível, considerando que para quem recebe até quatro salários mínimos, o comprometimento de até 25% dos seus proventos para ter acesso à Internet em casa é um luxo - que muitos não estão dispostos a pagar.

É óbvio que se a questão fosse meramente econômica, haveria um enorme sucesso nasiniciativas de telecentros Brasil afora, que oferecem acesso gratuito em milhares de pontos. No entanto, restrições à navegação, horários de uso limitados e incompatíveis com as necessidades das pessoas, além de outros problemas diversos, fazem com que estas iniciativas governamentais representem a alternativa para o acesso de menos de 4% da população que utiliza a Internet no país.

Entretanto, precisamos admitir que embora seja um fator crítico, o elemento econômico é apenas um dos componentes dessa equação na compreensão da escolha pela lanhouse. Como proprietário de um espaço coletivo de acesso há quase dez anos, posso testemunhar que a lanhouse é um ambiente de alta interação social, que não apenas permite mas potencializa o contato entre as pessoas, e faz do acesso à tecnologia uma experiência menos fria que o contato puro e simples com o computador. É sabido que, em matéria de acesso a conteúdos, os elementos que geram maior interesse em todos os cantos do planeta são aqueles que favorecem os relacionamentos interpessoais: sejam as redes sociais, sejam os comunicadores instantâneos, os microblogs ou as demais ferramentas de comunicação entre pessoas na Web. Estes são os campeões de audiência em todas as avaliações e análises sobre o uso da Internet – e deste fato se entende que a maquina não é um fim por si só, mas um meio para alcançar e interagir com os outros - iguais ou diferentes. Na lanhouse isso aflora, pois estes espaços hoje significam o que outrora foi a pracinha, o campinho ou a várzea, onde jovens e adultos se reunem não apenas para saber das coisas e ter seu pedacinho na janela para o mundo (que no nosso caso é a Internet), mas para experienciá-lo em companhia de outros. Essa é uma diferença fundamental, e vivenciar isso no dia a dia dá uma sensação agradável. É bom perceber que, a despeito do meio pelo qual esteja se expressando, o ser humano não nasceu para viver só.

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